Oi! Tudo bem por aí?

Aqui é o Luiz da MEVBrasil!

Eu não sei bem como você vai receber o que eu quero compartilhar com você. Pode ser um pouco polêmico. Eu só vou te pedir que leia com atenção e pense um pouco junto comigo. Depois a gente pode trocar algumas ideias sobre isso e vai ser um prazer para mim ver o que você pensa.

Acho que a gente precisa aprender a escolher se nós queremos ter o paciente ou ter razão. Eu prefiro ter o paciente. Vou te explicar.

Muitas vezes eu vejo colegas reclamando que o paciente chega no consultório tomando medicações que não fazem sentido, usando vitaminas, suplementos, manipulados, anabolizantes e um monte de outras coisas que nós sabemos que são bobagem ou são perigosas para a saúde dele. 

Tem outros pacientes que chegam com um monte de informação sobre diagnóstico e tratamento que leram na internet. O nosso famoso “Dr. Google” e seu novo colega, “Dr. GPT”.

Isso nunca me incomodou muito, mas tira muita gente do sério. Eu vejo colegas brigando com o paciente, dizendo que não concordam com aquelas condutas… Tem gente que reage de uma forma muito ruim dando aquelas carteiradas do tipo “Quem é o médico aqui?”, e coisas do tipo.

Sabe o que eu penso disso? Eu acho essa postura muito errada. Ou melhor, simplesmente inútil. 

Porque eu “sou o médico”, eu devia saber que o paciente só está tentando resolver o problema dele, ou o que ele acha que tem. Ele não tem culpa. E às vezes foi um colega que prescreveu, então ele não tem como saber que está errado. 

Tem outras vezes que ele até sabe que pode fazer mal pra ele, mas quer usar para resolver uma questão que incomoda muito física ou psicologicamente. É o que eu vejo no caso de anabolizantes, que os pacientes procuram para melhorar algum problema de “falta de disposição”, aparência ou lidibo. Ou qualquer outra razão. Já vi muitas.

Eu penso que essas pessoas estão tentando resolver alguma coisa que não está bem na vida delas. Coisas mal resolvidas que ninguém nunca cuidou, que nem eles têm consciência do que é no fundo. Tem muito sofrimento sendo medicado quando devia estar sendo entendido.

Aí você pode me questionar se essa não é mais uma razão para eu insistir com o paciente que ele está errado. Eu te respondo que ninguém “cura” uma ferida desse tipo com uma chamada de atenção. Não adianta nem dizer diretamente para ele que o problema é outro. A distância entre a cabeça e o coração é a mais longa do universo. Nem tudo que a gente entende racionalmente resolve as coisas que causam sofrimento emocional.

Parece fútil e risco excessivo, para nós que sabemos disso, usar anabolizante para ficar “forte” e “bonito”. Ou como a gente gosta de dizer nas nossas palavras técnicas “por uso estético”. Isso me deixa pensando: será que a gente tem noção do quanto as pessoas sofrem na vida porque não se sentem aceitas ou por não aceitarem como são? A gente que gosta tanto de evidência não vimos os artigos que mostram que a dor social é vista no cérebro como dor física?

Não estou justificando o uso, viu? Não, de jeito nenhum. Não concordo com ele também. Mas eu estou tentando validar o sofrimento. Validar não é concordar. É ver o valor que está sendo buscado ali. É bem diferente. 

Eu estou te dizendo que muitas vezes será um caminho longo até o paciente conseguir chegar onde ele precisa chegar. Não vai ser com uma consulta que ele vai fazer isso. O buraco é bem mais embaixo e demora para descer até lá.

Como eu faço isso na prática? Eu já aprendi que não adianta querer  ter razão. Eu preciso ter o paciente.

E ele não vai confiar em qualquer um para levar ele até esse lugar. São lugares emocionalmente muito perigosos. Se eu quero ajudar meu paciente de verdade, preciso que ele confie em mim. Eu preciso que ele me veja como “o médico” dele. E isso só vai acontecer se sentir que eu entendo o que ele está vivendo.

A relação com o paciente é como qualquer relação. A gente precisa ter paciência e estratégia. Quem já jogou xadrez sabe que é preciso sacrificar algumas peças no caminho para ganhar o jogo. Eu faço isso. E funciona sempre. Eu sacrifico a “conduta certa” em favor da “melhor conduta possível no momento”, até eu conseguir armar a melhor jogada para ajudar o paciente. Claro que tudo dentro do que é ético e seguro. Na maior parte das vezes nenhuma dessas situações são urgentes e a gente conta com o luxo de ter tempo.

Depois de tantos anos lidando com situações difíceis no consultório, meus pacientes me ensinaram a ter paciência e humildade. E a fazer a melhor escolha. Foi uma das minhas pacientes que me disse uma vez que preferia ter paz a estar certa. Uma regra que vale para muitas coisas na vida.

Como diziam nossos avós: vão-se os anéis, ficam-se os dedos. Com os dedos a gente trabalha e compra outros anéis. Isso é confiança e esperança. Eu confio que se o paciente me der chance eu chego lá com ele. 

Bom… pensa ai e depois a gente conversa de novo.

Abraço

Luiz

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