Oi, tudo bem?
Aqui é o Luiz, da MEVBrasil.
Estava pensando aqui esses dias que tudo que é importante na vida, no fim, é off-label, não “está na bula”, e isso me deixou um pouco assustado.
A gente usa muita coisa off-label na medicina. Na psiquiatria (que é a minha especialidade), existem muitos tratamentos off-label. Deve ser o mesmo nas outras especialidades.
O off-label é uma zona cinzenta. De um lado existem os tratamentos que são seguros e funcionam. Do outro temos aqueles que não funcionam ou não são seguros. E no meio do caminho, os medicamentos seguros mas ainda não aprovados para aquele problema. Geralmente usamos essa opção para tentar tratar uma doença para a qual não temos muitas opções de remédio, mas que a gente precisa tentar alguma coisa para ajudar o paciente.
Não sei como você encara isso. Mas eu sempre fico preocupado quando preciso entrar nessa situação. Na minha cabeça sempre passa a ideia de que, se não está na bula e o paciente tivesse algum problema, eu acabaria tendo um problema também. Como eu vou me defender caso seja acusado de erro médico? Isso me gera um pouco de ansiedade. Apesar disso, muitas vezes a gente não tem escolha, tem que arriscar. Mas, claro, sempre apoiados pela literatura médica. É muito irresponsável inventar tratamentos da própria cabeça.
Só que, parando para pensar sobre isso, eu acabei vendo que muito da nossa carreira e vida na medicina acaba acontecendo off-label também. Não tem bula que explique o que fazer. E está ficando cada vez mais claro que a “bula” da carreira não resolve os nossos problemas hoje. O caminho que nossos professores fizeram na carreira não existe mais. E, na real, a nossa formação não conta nem metade da história do que é ser médico de verdade. Estamos na mesma zona cinzenta como nos tratamentos off-label.
Da mesma forma como a gente faz quando está com um caso que precisa de tratamento off-label, acho que agora é hora de nós, médicos, olharmos para os lados e buscarmos conhecimento em outras áreas, ampliar a visão. Aquela famosa frase que diz que quem só medicina sabe, só medicina sabe, está mais que certa agora. Quanto mais restrito for nosso repertório de conhecimento de fora da medicina, menos recursos vamos ter para criar vidas e carreiras que valham a pena.
Está mais do que correto ter medo de passar um tratamento off-label, como eu fico. Isso é sinal de responsabilidade. Mas é um ato de coragem também, pelo bem do nosso paciente que sofre.
Da mesma forma, na vida, a gente precisa ter essa coragem de olhar para fora e tentar coisas fora da bula. Precisamos ter a coragem de aprender coisas fora da medicina, de criar oportunidades novas. Isso vai deixar a nossa forma de ver o mundo mais rica e melhorar quem somos como médicos. Você pode achar isso na arte, na literatura, na filosofia ou na psicologia. Isso vai te tornar uma pessoa mais rica e com uma visão de mundo mais ampla.
Para mim está ficando cada vez mais claro que muito do que deixa a vida mais valiosa é “off-label”. Só que a gente precisa aprender a andar em um território diferente do descrito na bula da medicina. Em alguns momentos, não vamos ter certezas, não vamos ter regras, não vamos ter um guideline para seguir. Vai ter tudo off-label de verdade.
Não sei se você concorda. Seria legal depois saber sua opinião sobre isso.
Abraço!
Luiz
PS: Resolvi pensar mais sobre isso, e toda semana vou estar por aqui escrevendo essa newsletter “Tudo Off-label”, pensando com você sobre o que a gente não aprende nos livros e não encontra na bula. Espero que goste e continue comigo.
