Oi, aqui é o Luiz, da MEVBrasil!
Como passou a semana? Espero que muito bem.
No último email conversamos sobre o quanto daquilo que realmente importa na medicina está fora dos guidelines, é off-label. Principalmente quando o assunto é carreira. Recebi vários emails que me fizeram pensar em algumas coisas a mais que vou compartilhar com você.
Quando eu entrei na faculdade de medicina fui apresentado a uma ideia do que era ser um médico de sucesso e qual era o caminho para chegar lá. Também deve ter sido assim para você. Só que hoje eu estou vendo essa ideia desmoronar.
O conceito de sucesso era um caminho que ia da graduação até um doutorado. Passava por fazer uma residência em um serviço de excelência. Incluía ser ativo na sociedade de especialidade e ser respeitado pelos colegas. A expectativa era de que, junto com isso, viesse também um consultório lotado. Essa boa carreira era também um bom negócio.
Só que não é mais assim. Um doutorado, por exemplo, não faz o consultório lotar. O jogo mudou e a gente não entendeu. Esse sucesso agora pode ser um mau “negócio”. O consultório desse “médico com carreira de sucesso” está vazio e o do outro com mais “presença digital”, por exemplo, está cheio. As referências são outras, a autoridade parece que mudou de mão.
Quem me ajudou a entender isso foi o sociólogo francês Pierre Bourdieu. Ele descreveu em seus trabalhos que a sociedade é formada por diversos “campos”, cada um com um tipo de jogo social, com suas regras, hierarquias e donos do poder. Cada campo tem sua definição de sucesso, o troféu que todos devem perseguir. E tudo isso é algo que só as pessoas dentro do campo aceitam como verdade, mas fora dele ninguém valoriza. Por isso ele chama essas convenções do campo de “illusio”, uma ilusão.
O troféu de um campo pode não valer nada em outro. Vou te dar um exemplo: ter um doutorado em um campo acadêmico é condição essencial para você ser reconhecido, mas fora de lá, em alguns espaços do mercado de trabalho, ter doutorado pode até ser mal visto. Você pode ser considerado “teórico demais” e julgado como alguém que só conhece teoria e nada da prática.
Nós somos formados dentro do campo acadêmico da medicina. Nesses campos o troféu é claro: é a boa formação, a publicação, a titulação. Tudo isso é essencial para a formação de um bom médico, claro. Só que o contexto social, político e econômico da saúde mudou muito nos últimos anos. Agora isso nos coloca em quatro campos diferentes, com jogos e definições de sucesso bem distintas.
Quem trabalha no setor público vai estar em um campo onde as regras são as da política. O que está em jogo é a satisfação do eleitor, a figura central. E toda a lógica vai girar em torno da disputa eleitoral. Eu trabalhei no setor público e isso era muito claro. A eleição determinava tudo.
No setor privado, dos hospitais, operadoras e convênios, o funcionamento é o de grandes empresas. A linguagem é a do mundo corporativo. O médico não é o centro desse sistema como na academia. O troféu vai para o executivo que entrega melhores resultados, eficiência na gestão, otimização de recursos.
O último campo, o do consultório, é onde, na minha opinião, está ocorrendo a mudança mais radical de todas. Essa mudança está ocorrendo porque o paciente se vê diferente no mercado de saúde. O paciente, se vendo como cliente, tem expectativas diferentes e escolhe qual a definição de “bom médico” ou “médico de sucesso” para ele. É aí que aquela boa carreira acadêmica não garante que o negócio da sua clínica seja bom.
Certo ou errado (a discussão aqui não é essa), o paciente está fazendo isso. E ao fazê-lo, está nos obrigando a deixar de ser apenas profissionais liberais para nos tornar empreendedores em saúde. As regras do jogo e os troféus mudaram. O que é a definição de um médico de sucesso no campo acadêmico não é necessariamente a mesma que o paciente usa.
O troféu de uma carreira não é troféu em outra. Pouco importa para o torcedor de um time de futebol que um nadador olímpico ganhe uma medalha de ouro.
A boa formação é essencial. É preciso ter excelência clínica para oferecer os melhores resultados para nossos pacientes. O problema é que não podemos ficar cegos para a necessidade de outras habilidades exigidas pelos diversos campos onde podemos estar.
A conclusão a que eu chego depois de pensar nisso, é que precisamos entender que existem esses diferentes campos, as suas regras e suas definições de sucesso. Só que podemos escolher qual nossa definição pessoal de sucesso, um sucesso off-label, não necessariamente aquele ditado pelos donos de um campo.
Afinal, como Bourdieu disse, o que o campo diz ser sucesso é só “illusio”.
O que acha disso?
Abraço e até semana que vem!
Luiz
