Oi! Tudo bem?
Luiz da MEVBrasil por aqui!
Você já foi trabalhar doente alguma vez?
Eu estou te perguntando isso porque quando eu sentei aqui para escrever esse e-mail hoje estava com muita dor de cabeça e pensei em desistir de escrever. Pensar isso me causou uma certa culpa porque é um compromisso que eu assumi comigo, e com você (mesmo que você não saiba disso), de enviar um e-mail toda semana com alguma coisa interessante para trocarmos ideias. Se eu não escrevesse hoje estaria traindo esse combinado.
Isso me fez pensar quantas vezes, mesmo não estando bem, com alguma doença, eu fui mesmo assim para o consultório ou para o plantão. Como médico eu não me sentia no direito de faltar, desmarcar uma consulta. Parecia uma traição. Meu dever era sagrado, eu não podia, de forma nenhuma, profanar isso. Estando bem ou não, era minha obrigação. Como dizia uma professora minha, a única desculpa para faltar um plantão era “a morte própria”.
Você já fez isso? Fiz muito. Até o dia em que um paciente meu me deu uma lição. Ele chegou para a consulta e disse que era a última consulta dele comigo. Bom, foi um susto, você deve imaginar. Ele disse que na última vez que ele tinha ido na consulta eu parecia não ter dado atenção a ele, não estava ouvindo direito e isso fez ele sentir que eu já não me importava com o caso dele.
Eu não disse nada. O que eu ia dizer também? Só agradeci a gentileza dele ter ido me falar isso, o que não era muito comum. Geralmente os pacientes só não voltam mais. Além do mais, eu me conheço e sei que não devia ser essa a verdade. Fui procurar qual o último dia que ele tinha ido. E foi justamente um dia em que eu estava doente, com uma terrível crise de enxaqueca, mas fui atender mesmo assim. Eu sei disso porque eu desmarquei os pacientes depois dele e isso ficou anotado na agenda.
Isso me fez entender que eu não tenho o direito e o dever de trabalhar doente. O dever porque todo mundo pode e merece se cuidar. Quantos atestados de afastamento do trabalho eu não tinha feito na vida? Porque só eu não tinha direito de me cuidar Por outro lado eu não tinha o direito de atender mal meu paciente por qualquer motivo, mesmo que fosse porque eu estava mal. Eu sou meu instrumento de trabalho. Não é certo usar um instrumento com defeito.
Achei importante pensar de onde vem isso. Tem um professor de psiquiatria da Universidade de Columbia, Robert Klitzman, que escreveu um livro muito legal sobre isso. O livro se chama “Quando o médico se torna paciente”. Ele diz que nós médicos temos muita dificuldade de mudar de lado na mesa do consultório. Estamos tão identificados com nosso papel de médicos que se tornar paciente não é possível, ou certo. É como se fosse uma “denuncia” de que nós falhamos. Na ideia dele, nós formamos uma dicotomia na nossa mente assim: doente é o paciente, não o médico; logo o médico não pode adoecer. É doido, mas é o que a gente faz sem pensar. Por isso o Klitzman diz que um médico nunca será um paciente inteiro, só um “meio-paciente”.
E porque a gente pensa assim? Faz parte do pacote que a sociedade espera de nós. O médico, na visão das pessoas, não adoece, sabe tudo de saúde, não pode sofrer, não pode sentir, não pode ter medo de sangue, ou ter nojo de nenhuma secreção do corpo humano. O médico está lá para atender, curar, salvar, ouvir, entender, saber e não ter dúvida.
“Como assim doente? Como assim com fome? Como assim cansado?”
Médico que é médico, na visão de algumas pessoas, é igual a soldado, bombeiro ou policial. Não pode ter medo. Não pode não ir para a trincheira. É lutar até a morte. Não concorda que é isso que as pessoas pensam? Assiste qualquer seriado médico e me fala se não é esse o ideal de médico? Eu cresci vendo ER (no Brasil era o Plantão Médico). Lembra do ER? Não esqueço o dia que o “Doutor Benton” disse para o “Doutor Carter”, que era o residente, que “médico comia e dormia quando dava”.
Isso não é certo. É muito errado. Nós precisamos nos dar o direito de sermos normais. Até porque não temos o direito de prejudicar alguém por isso. Agora lembra de uma coisa: poucos direitos na história da humanidade foram “dados”; a maior parte deles foi conquistado.
Bom, sabe aquele meu paciente? Eu não falei nada. Não discuti. Agradeci. Sabe porque? Era meu aniversário naquele dia. Ele não sabia, eu não falei nada. Até hoje ele não deve saber disso. Mas foi um presente. Eu nunca mais atendi doente e nem no dia do meu aniversário. E não, por uma razão “ética” ou “técnica”. Sim, são bons motivos esses, mas não foi por isso. Foi porque eu mereço me cuidar. Eu tenho esse direito. E no fim, nem todo paciente vai reconhecer o sacrifício que eu estou fazendo naquele dia por ele. Nem todo paciente quer saber. Ele não tem essa obrigação. É duro, mas é verdade.
E você? O que me diz sobre isso?
Abraço
Luiz
