Olá, aqui é o Luiz, da MEVBrasil! 

Nossa, depois daquele último email em que a gente trocou algumas ideias sobre qual tipo de “sucesso” eu e você estamos correndo atrás, minha cabeça foi longe. 

Estava lembrando de vários professores meus da faculdade que eram aquela figura de sucesso que a gente queria ser. Sabe, o cara que sabe tudo, que pensa em todos os diagnósticos, descobre as doenças mais raras? Não sei você,  mas era o tipo de médico que eu admirava naquela época. Só que hoje eu tenho repensado um pouco isso.

Esses professores meus eram “figuras”, do tipo que aparece em série médica. Sempre estudando. Eu tinha um professor de clínica médica que se orgulhava de ler de cabo a rabo toda edição nova do Cécil e do Harrison. E quando eles internavam  um paciente para “investigação”,a gente sabia que seriam semanas de discussão de diagnósticos e tratamentos. Certeza que você teve um professor assim.

Hoje eu questiono se esse estilo de médico é bom para o paciente. Sabe porque? Ele era um artista. Cada caso era “feito a mão” por semanas. E o resultado do paciente dependia dele conseguir mostrar o talento. Nesse caso, nunca tem garantia de que o paciente vai ter um bom resultado. Mas a gente acha que isso é assim mesmo e se defende dizendo que a medicina “é uma profissão de meios, não de fins.” Olha, o paciente não pensa assim. Ele quer melhorar. Não interessa pra ele quanto você leu, interessa o resultado. Isso é difícil de ouvir.

Eu comecei a ver que isso não é uma opinião só minha. Ando lendo vários autores que dizem justamente isso. Que a gente precisa alcançar o melhor resultado para o paciente atendendo com qualidade. E pra isso não dá pra achar que vai acontecer por talento. Porque o talento nem sempre dá resultado. E o pior: nem é o talento do médico que dá esse resultado. É outra coisa.

Eu li alguns livros de um economista americano que é o “pai da qualidade”, chamado William Deming. Sabe o que ele diz? Que a performance de uma pessoa depende do sistema em que ela trabalha, não do talento dela. Ele tem uma frase legal: “cada sistema é desenhado perfeitamente para alcançar os resultados que alcança”.

Quando eu era aluno suspeitava disso. Eu e meus colegas todos de turma. A gente ficava se perguntando se o professor ia conseguir chegar no mesmo resultado fora do hospítal da universidade, onde ele tinha como fazer tudo que era exame a hora que quisesse (e a nossa tarefa no “infernato” era conseguir garantir que o paciente ia fazer no mesmo dia kkkk).

Mas não é só esse economista que me convenceu não. Achei vários pesquisadores médicos que falam isso. Dois legais que você pode procurar depois é o Avedis Donabedian e o Elliot Fisher. 

O Fisher é um professor de Dartmounth que publica muito sobre “variação não justificada” nas nossas condutas. Basicamente ele diz que os resultados do tratamento variam por diferenças da cultura dos médicos de um local (sabe aquela famosa coisa de “uma escola faz de um jeito, outra faz de outro”?), se tem mais ou menos recursos técnicos e a forma como os médicos são remunerados. Isso daria outra discussão…

Tá, mas como a gente resolve isso? O Donabedian é que responde. Bem na mesma ideia do Deming, ele fala que a qualidade do atendimento médico melhora quando você constrói “processos e estruturas” que aumentam a chance de dar certo. 

O bom médico não é um artista que confia no talento, é alguém que conseguiu criar um sistema que não deixa ele escorregar. Ele vai deixar de ser um artista que sempre deixa uma imperfeição no que faz, e tenta construir uma “fábrica” que dá mais resultado.

Mas eu até arrisco que você pode ter pensado que fazer isso vai deixar o tratamento menos “pessoal”. Mas é o contrário. Porque um dos resultados mais importantes que o sistema tem que garantir é a boa experiência de cuidado do paciente. Uma hora a gente pode conversar sobre isso. É um assunto bem legal.

Então, hoje eu acho (e outros autores também), que a gente só vai ser bom médico se for de propósito. Pra fazer da melhora do paciente algo inevitável, que não depende só da gente. Porque a gente escorrega né?!

Mas, depois me conta o que você pensou disso. Vai ser um prazer.

Bom fim de semana!

Luiz

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